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“MÃE ENDOSEXO” E “ASSISTENCIALISTA”: QUANDO O APAGAMENTO DE UMA MULHER INTERSEXO NA CIÊNCIA SE TORNA MISOGINIA E INTERSEXOFOBIA

Orientação no doutorado

Por Profa. Dra. Thaís Emília de Campos dos Santos

INTERSEXOFOBIA EXISTE — E EU A VIVENCIEI MUITAS VEZES.

Na foto: Thais Emilia , Jacob Cristopher com o prof Dr Raul Aragão Martins, em reunião de orientação na doutorado na UNESP.

Eu sofro intersexofobia. E parte dessa violência vem justamente do fato de eu ser uma mulher intersexo, pesquisadora e mãe de uma pessoa intersexo. E lida como cis, mesmo não sendo CIS e sim IPSOGÊNERA (pessoa intersexo que se identifica com o sexo de registro , mas por ser intersexo precisa de procedimentos durante toda vida – hormonizações e cirurgias).

Durante meu pré-natal, quando identificaram que meu filho apresentava uma genital atípica, chegaram a sugerir a interrupção da gestação, chamavam meu bebê de anômalo e monstro. Sou mãe de outras crianças intersexo, mas por questões internar, a intersexualidade quando envolve o genital atípico estreias os estigmas e violências já na vida neonatal, foi o que ocorreu com Jacob.

No nascimento de Jacob, enfrentei outra violência. Pelos corredores do hospital espalhou-se o comentário de que havia “nascido uma criança hermafrodita”. Minha família e meu bebê viraram assunto, exposição e boato justamente em um momento em que deveríamos estar sendo acolhidos e protegidos.

Depois veio uma das experiências mais dolorosas: meu filho ficou sem certidão de nascimento e eu fiquei sem licença-maternidade, porque o sistema não estava preparado para registrar um bebê intersexo.

Eu denunciei. Lutei. Pesquisei. Produzi conhecimento. E transformei a violência que vivemos em mobilização política e mudança concreta.

Foi a partir dessa luta que elaborei e propus iniciativas legislativas e políticas públicas fundamentais para os direitos das pessoas intersexo no Brasil, entre elas o Estatuto Federal da Pessoa Nascida Intersexo — Lei Jacob, construído a partir da história e da luta que começou com meu filho; o Dia de Conscientização contra a Mutilação Genital Infantil; além de propostas para proteger a integridade corporal de bebês e crianças intersexo e postergar intervenções cirúrgicas desnecessárias e irreversíveis. Proibição de cirurgias mutiladoras em bebês intersexo, oferta de prótese mamária para mulheres intersexo pelo SUS, diversas audiências públicas no MP, OAB e DPU, livros, atuações na ONU que resultaram na mobilização do debate da resolução do CFM e denuncias que resultram na Resolução Intersexo do CFP.

A luta pelo registro civil também nasceu da violência que vivemos. Trabalhei para transformar aquilo que aconteceu com Jacob em uma garantia para outras crianças: nenhum bebê deveria ficar sem existir juridicamente porque nasceu intersexo.

Essa mobilização contribuiu para uma mudança histórica no Brasil em consonância com os princípios defendidos na Declaração Internacional de San José da Costa Rica: permitir que bebês intersexo sejam registrados sem a imposição imediata de uma definição de sexo quando ela não é possível no nascimento.

Aquilo que um dia impediu meu filho de ter uma certidão transformou-se em uma luta para garantir direitos a outras crianças e famílias. Além de resultar em adiar e postergar cirurgias em bebês nascidos intersexo.

Mas existe uma parte dessa história que também precisa ser contada: eu não sou apenas mãe de uma pessoa intersexo nem objeto de uma história sobre intersexualidade. Eu sou uma mulher intersexo que também produz conhecimento científico sobre intersexualidade.

Minha trajetória acadêmica nesse campo não começou agora.

Sou pesquisadora na área de diversidade, educação especial e inclusiva e Direitos Humanos e Feminismo há anos, com produção voltada especialmente à educação, infância, direitos humanos, famílias, bioética e às questões sociais que atravessam a existência das pessoas intersexo. Também, antes de Jacob, fui Conselheira da Pessoa com Deficiência e do Idoso e Conselheira da Mulher.

Minha tese de doutorado investigou a educação de crianças intersexo e, de acordo com o levantamento que realizei à época, foi a primeira tese de doutorado de uma mulher intersexo sobre educação de crianças intersexo que identifiquei no mundo.

Depois dela, continuei pesquisando, escrevendo, publicando e produzindo conhecimento sobre intersexualidade.

Minha trajetória inclui artigos científicos, capítulos, livros, pesquisas acadêmicas, formação de profissionais, participação em espaços científicos e construção de políticas públicas.

Também sou autora e organizadora de obras dedicadas à intersexualidade e participei da produção de conhecimento que ajudou a ampliar esse campo de pesquisa no Brasil.

E minha trajetória científica continua.

Atualmente desenvolvo pós-doutorado na UNESP, pesquisando a decisão médica sobre cirurgias realizadas em bebês e crianças intersexo a partir de uma perspectiva sociomoral, articulando educação, psicologia, bioética, medicina e direitos humanos.

Portanto, quando se fala da minha trajetória, não se está falando apenas de uma mãe que começou a lutar depois do nascimento de seu filho.

Está se falando também de uma mulher intersexo, doutora, pesquisadora, autora e produtora de conhecimento sobre intersexualidade.

E é exatamente por isso que determinados apagamentos dentro da própria academia precisam ser discutidos.

Mesmo com toda essa produção, muitas vezes vejo trabalhos sobre intersexualidade abordarem temas diretamente relacionados às minhas pesquisas sem sequer referenciarem minha produção científica.

E aqui é preciso fazer uma distinção importante: nenhum pesquisador é obrigado a citar todos os trabalhos existentes sobre determinado tema. Recortes teóricos, metodológicos e bibliográficos fazem parte da autonomia científica.

O problema surge quando a ausência de referências se soma à descaracterização da identidade, da trajetória e da produção de uma pesquisadora, produzindo um padrão de invisibilização que precisa ser analisado criticamente.

No meu caso, esse apagamento chegou ao ponto de eu ser descrita em uma dissertação de mestrado como “mãe endossexo”.

Eu sou uma mulher intersexo.

Tenho laudo e documentação médica e carrego no meu corpo e na minha história as marcas das violências que sofri.

Ser intersexo não significa necessariamente ser infértil. Não existe uma única forma de um corpo intersexo existir.

Mulheres intersexo podem engravidar. Mulheres intersexo podem ser mães.

Portanto, reduzir minha existência à expressão “mãe endossexo” significa apagar uma dimensão fundamental da minha própria identidade e da posição a partir da qual construí parte da minha trajetória científica e política.

E não foi apenas isso.

Meu trabalho também foi chamado de “assistencialista”.

É necessário refletir sobre o peso dessa palavra quando ela é utilizada para caracterizar a atuação de uma mulher que, além de acolher famílias e pessoas historicamente abandonadas pelo Estado, desenvolve pesquisas, publica trabalhos científicos, escreve livros, participa da elaboração de políticas públicas e constrói propostas legislativas.

Por que o cuidado realizado por mulheres é tão facilmente reduzido a “assistencialismo”?

Por que acolher mães, crianças e famílias diminuiria o valor da produção intelectual de uma pesquisadora?

Por que maternidade, cuidado, ativismo e ciência precisariam ocupar lugares incompatíveis?

E, principalmente: quem a ciência reconhece como sujeito produtor de conhecimento?

Quem é citado?

Quem é reconhecido como pesquisador?

Quem é reconhecido com primeiro doutor intersexo? Porque não reconehcem a priemira doutora intersexo?

Quem permanece apenas como “mãe”?

Quem é transformado em objeto de pesquisa?

Quem tem sua experiência analisada enquanto sua própria produção intelectual desaparece?

Essas perguntas ultrapassam minha história pessoal.

Elas fazem parte de uma discussão muito mais antiga sobre o apagamento das mulheres na história da ciência.

Mulheres sempre produziram conhecimento, fizeram descobertas, desenvolveram pesquisas, construíram políticas e transformaram sociedades. Ainda assim, inúmeras tiveram suas contribuições minimizadas, silenciadas, apropriadas ou simplesmente esquecidas.

Quando uma mulher exerce a maternidade, existe ainda outro risco: que sua identidade intelectual seja substituída pela condição de mãe.

No meu caso, isso se torna ainda mais complexo.

Porque eu sou mãe e sou intersexo.

Eu sou pesquisadora e sou intersexo.

Eu produzo ciência sobre um campo do qual também faço parte.

Portanto, quando minha identidade intersexo é apagada e sou descrita apenas como “mãe endossexo”, não desaparece somente uma palavra.

Desaparece a mulher intersexo.
Desaparece a pesquisadora intersexo.
Desaparece a cientista que também vive aquilo que pesquisa.

Desaparece a mãe e mulher intersexo que fundou e fez ser regulamentada a primeira ASSOCIAÇÃO INTERSEXO NO BRASIL . A quem serve essa apagamento?

Quando, ao mesmo tempo, uma trajetória de pesquisa, incidência política, produção bibliográfica e construção de direitos é reduzida ao rótulo de “assistencialista”, precisamos perguntar se não estamos diante da reprodução de mecanismos históricos utilizados para diminuir o trabalho intelectual e político das mulheres: PATRIACARDO DENTRO DO MOVIMENTO LGBT DEVERIA SER INADIMISSÍVEL, QUEM COMPACTUA COM ISSO, DECLARA SEU MACHISMO e fortalece crimes contra mulheres inclusive a crescente onda de feminicidio.

É justamente nesse ponto que misoginia e intersexofobia podem se cruzar.

Apaga-se a mulher pesquisadora e permanece apenas a “mãe”.

Apaga-se a mulher intersexo e escreve-se “endossexo”.

Apaga-se a produção científica e chama-se sua atuação de “assistencialista”.

Apagam-se pesquisas, livros, artigos, políticas públicas e contribuições intelectuais.

E isso também nos obriga a falar sobre ética na ciência.

A ciência exige rigor metodológico, honestidade intelectual, responsabilidade com as fontes e cuidado com as afirmações que fazemos sobre outras pessoas.

A crítica acadêmica é legítima. Divergências teóricas são legítimas. Questionar métodos, conceitos e interpretações faz parte da própria ciência.

Mas descaracterizar factualmente a identidade de uma pessoa é outra coisa.

Da mesma forma, quando um campo científico utiliza histórias, experiências, movimentos sociais e conhecimentos construídos por determinados sujeitos, precisamos discutir quais vozes são reconhecidas como produtoras de conhecimento e quais continuam sendo tratadas apenas como fontes ou objetos de pesquisa.

Essa discussão também é epistemológica.

Quem tem autorização para produzir conhecimento sobre pessoas intersexo?

A pessoa intersexo pode falar por si?

Pode pesquisar sua própria realidade?

Pode produzir teoria?

Pode construir políticas?

Pode ser reconhecida como cientista?

Ou continuará aparecendo nas pesquisas apenas como corpo, diagnóstico, mãe, paciente ou objeto?

Eu me recuso a aceitar esse lugar.

E, mesmo depois de tudo isso, a intersexofobia não terminou.

Até hoje há quem tente dizer que eu não sou intersexo porque engravidei.

Já ouvi de um médico que ele tinha “nojo” de mim por eu ser intersexo.

Também vivenciei apagamentos dentro de espaços de diversidade, ativismo e produção acadêmica.

Por isso, quando falo de intersexofobia, não estou falando apenas de um conceito abstrato.

Estou falando de uma violência que atravessou minha maternidade, meu corpo, minha vida profissional, minha militância e minha trajetória científica.

Eu não conto minha história para disputar protagonismo.

Eu conto porque tentaram apagá-la.

Quando Jacob nasceu, tentaram transformar sua existência em um problema.

Quando não conseguimos registrá-lo, transformei aquela violência em luta por direitos.

Quando comecei a pesquisar, transformei nossa experiência em produção de conhecimento.

Quando entrei na academia com essa discussão, passei a contribuir para a construção de um campo científico ainda incipiente no Brasil.

Transformei a violência que atingiu meu filho e minha família em luta coletiva, legislação, políticas públicas, pesquisa e produção de conhecimento.

O Estatuto Federal da Pessoa Nascida Intersexo — Lei Jacob, o Dia de Conscientização contra a Mutilação Genital Infantil, a luta pelo direito ao registro civil de bebês intersexo e as propostas para proteger crianças de intervenções cirúrgicas precoces e desnecessárias fazem parte dessa trajetória.

Assim como fazem parte dela minha tese, meus artigos, meus livros, minhas pesquisas e meu pós-doutorado.

“Não permitirei que apaguem aquilo que vivi.

Não permitirei que apaguem aquilo que pesquisei.

Não permitirei que apaguem aquilo que construí.

Não permitirei que minha maternidade seja utilizada para retirar de mim meu lugar de pesquisadora.

E não permitirei que apaguem minha condição de mulher intersexo para contar uma história da qual eu mesma faço parte.

Continuarei denunciando a intersexofobia onde ela estiver: na medicina, nas instituições, na sociedade, na academia ou dentro dos próprios movimentos sociais.

Pessoas intersexo existem”

Mulheres intersexo existem.

Mulheres intersexo podem engravidar.

Mães intersexo existem.

Pesquisadoras intersexo existem.

Mulheres intersexo produzem conhecimento.

Mulheres intersexo fazem ciência.

Mulheres intersexo fazem história.

E nenhuma dissertação, instituição ou pessoa deveria ter o poder de apagar nossa existência ou nossas contribuições.

Apagamento também é violência.
Apagamento das mulheres na ciência também precisa ser denunciado.
Apagamento da identidade de uma mulher intersexo pode ser intersexofobia.

E registrar nossa própria história também é resistência.

#Intersexo #Intersexofobia #MulheresNaCiência #VisibilidadeIntersexo #DireitosHumanos

Uma leitura necessária e urgente

Jacob(y), “Entre os Sexos” e Cardiopatias: O Que o Fez Anjo? é uma obra autobiográfica em que Thais Emília transforma a história de Jacob em denúncia das violações de direitos vividas por bebês intersexo e suas famílias. O livro articula maternidade, luto, cardiopatias, cuidados paliativos e a luta contra intervenções irreversíveis, registrando também a trajetória que impulsionou sua mobilização pelos direitos das pessoas intersexo no Brasil.

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