
Por Profa. Dra. Thaís Emília de Campos dos Santos
A recente aprovação, pelo Congresso Nacional, da Política Nacional para Estudantes com Altas Habilidades/Superdotação (AH/SD) representa um dos mais importantes avanços das últimas décadas no campo da Educação Inclusiva brasileira. Embora o texto ainda aguarde a sanção presidencial para se tornar lei, sua aprovação já sinaliza o reconhecimento de uma população historicamente invisibilizada pelas políticas públicas educacionais.
Escrevo estas reflexões a partir de múltiplos lugares de fala: como mulher com Altas Habilidades/Superdotação, como mãe de crianças com AH/SD, como professora universitária, psicopedagoga, psicanalista, pesquisadora da área da Educação e profissional que, há mais de vinte anos, acompanha estudantes, famílias e adultos superdotados em diferentes contextos educacionais e clínicos.
Ao longo dessa trajetória, participei de inúmeros processos de identificação, enriquecimento curricular, aceleração de estudos, remanejamento de série, flexibilização curricular e adaptação de estratégias pedagógicas voltadas para estudantes com altas habilidades. Em grande parte dos casos acompanhados, os resultados foram extremamente positivos. Quando a escola reconhece as necessidades específicas desses estudantes e oferece respostas educacionais adequadas, observa-se não apenas melhora no desempenho acadêmico, mas também ganhos significativos na autoestima, na motivação, no bem-estar emocional e nas relações sociais.
Apesar disso, ainda persiste um dos maiores mitos relacionados à superdotação: a ideia de que estudantes com altas habilidades não precisam de apoio porque já apresentam desempenho acima da média. Essa compreensão equivocada ignora que a Educação Inclusiva pressupõe o atendimento às necessidades educacionais específicas de todos os estudantes, inclusive daqueles que apresentam elevado potencial intelectual, artístico, acadêmico, criativo ou de liderança.
A experiência clínica também tem demonstrado que a superdotação envolve muito mais do que desempenho escolar. Diversos estudos na área das neurociências e da psicologia do desenvolvimento apontam que pessoas com AH/SD frequentemente apresentam elevada velocidade de processamento cognitivo, intensa capacidade associativa, grande plasticidade neural, criatividade acentuada e uma tendência a estabelecer conexões complexas entre informações aparentemente distantes.
Na prática, isso significa que muitos indivíduos superdotados convivem com um fluxo intenso e contínuo de pensamentos, análises e reflexões. Não raramente, essa riqueza cognitiva vem acompanhada de sofrimento psíquico. Como psicanalista, acompanho frequentemente pessoas com AH/SD que relatam ansiedade, perfeccionismo, exaustão mental, sentimento de inadequação, hiperexigência, dificuldades de pertencimento e episódios depressivos.
Outro aspecto frequentemente observado é a intensidade emocional. Muitas pessoas superdotadas apresentam elevada sensibilidade e forte capacidade empática, percebendo com profundidade as dores, injustiças e contradições do mundo ao seu redor. Embora essa característica possa favorecer comportamentos éticos, criativos e socialmente comprometidos, também pode contribuir para o aumento da angústia emocional, da ansiedade e do sofrimento psíquico.
Entretanto, reduzir a experiência da superdotação apenas aos seus desafios seria um equívoco igualmente grave. A superdotação também é fonte de satisfação, realização e prazer. Existe um profundo contentamento intelectual em aprender, pesquisar, criar, descobrir soluções inovadoras, desenvolver projetos e transformar ideias em ações concretas.
Muitas pessoas com AH/SD experimentam intensa satisfação ao resolver problemas complexos, produzir conhecimento, desenvolver talentos artísticos, científicos ou tecnológicos e contribuir socialmente a partir de suas capacidades. Quando encontram ambientes acolhedores e estimulantes, tendem a apresentar elevados níveis de engajamento, criatividade e produtividade.
Nesse sentido, a Política Nacional para Estudantes com Altas Habilidades/Superdotação possui relevância que ultrapassa a esfera educacional. Trata-se de uma política de desenvolvimento humano, de promoção da saúde mental e de valorização dos talentos presentes na sociedade brasileira. A identificação precoce, a formação docente, o Atendimento Educacional Especializado (AEE), os programas de enriquecimento curricular e a possibilidade de aceleração de estudos não devem ser compreendidos como privilégios, mas como instrumentos de equidade educacional.
Reconhecer as altas habilidades significa reconhecer que a diversidade humana também se manifesta por meio dos diferentes modos de aprender, pensar, sentir e criar. Assim como a escola deve garantir recursos para estudantes com deficiência, também precisa assegurar condições adequadas para aqueles que apresentam potencial acima da média e necessitam de desafios compatíveis com suas capacidades.
Após mais de duas décadas acompanhando pessoas com AH/SD, posso afirmar que o reconhecimento e o atendimento adequado desses estudantes transformam trajetórias. Quando uma criança ou adolescente encontra uma escola capaz de compreender suas singularidades, ampliam-se não apenas suas possibilidades acadêmicas, mas também suas oportunidades de desenvolvimento emocional, social e profissional.
Por isso, a expectativa agora recai sobre a sanção presidencial. Caso seja sancionada, a Política Nacional para Estudantes com Altas Habilidades/Superdotação poderá representar um divisor de águas na história da Educação Inclusiva brasileira, contribuindo para que milhares de estudantes deixem de ser invisíveis e passem a ter seus direitos efetivamente garantidos.
Mais do que reconhecer talentos, trata-se de reconhecer pessoas. Pessoas que pensam de forma intensa, criam de forma singular, sentem profundamente e que, quando adequadamente acolhidas e estimuladas, podem contribuir significativamente para a construção de uma sociedade mais justa, inovadora e humana.
Profa. Dra. Thaís Emília de Campos dos Santos
Mulher com Altas Habilidades/Superdotação (AH/SD)
Psicanalista e Psicopedagoga
Doutora em Educação pela UNESP
Pós-Doutoranda em Psicologia da Educação – UNESP
Professora Universitária e Pesquisadora em Educação Inclusiva, Desenvolvimento Humano e Altas Habilidades/Superdotação
